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Nota divulgada pela escola expõe tensão nos bastidores; patrono Adilsinho tenta se afastar da imagem da contravenção enquanto disputa espaço com a “velha cúpula” do bicho

Poucas horas antes do desfile na Marquês de Sapucaí, o Salgueiro divulgou um comunicado reforçando “plena confiança na realização de julgamentos justos” e na condução da Liesa e de seu presidente, Gabriel David. A manifestação, aparentemente protocolar, teve forte peso político nos bastidores do Carnaval.

Por trás da nota está o descontentamento do patrono da escola, Adilson Coutinho Filho, o Adilsinho, com o resultado de 2025, quando o Salgueiro ficou fora do desfile das campeãs. O contraventor, que é considerado foragido e possui quatro mandados de prisão em aberto, atribui as notas baixas à sua relação conflituosa com nomes históricos da chamada “velha guarda” do jogo do bicho.

Entre os desafetos estão Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, ligado à Vila Isabel, e Anísio Abrahão David, patrono da Beija-Flor — figuras tradicionais na cúpula da contravenção que, desde a década de 1970, mantém acordos para divisão de territórios e contenção de disputas internas.

O embate ganhou contornos mais explícitos após a divulgação, em 2022, de uma ligação interceptada pela Polícia Federal. No áudio, Adilsinho fala sobre a criação de uma “nova organização” no jogo do bicho, sinalizando insatisfação com a antiga estrutura de poder. Ele cita o “verde e branca” — referência atribuída a Rogério Andrade, ligado à Mocidade Independente de Padre Miguel — como possível aliado na reconfiguração da cúpula.

Desde então, as relações entre o patrono do Salgueiro e os bicheiros mais antigos se deterioraram. Após o Carnaval de 2025, Adilsinho adotou postura discreta: pediu a retirada de menções ao seu nome na quadra e no barracão da escola e orientou integrantes a evitarem citá-lo publicamente. A estratégia busca reduzir a associação direta entre a agremiação e a disputa na contravenção, na expectativa de afastar qualquer influência negativa no julgamento.

Mesmo longe dos holofotes, o investimento foi alto. Integrantes da escola afirmam que o desfile deste ano é o mais luxuoso dos últimos cinco carnavais. A contratação de celebridades como musas também integra o plano para reforçar a imagem da agremiação e ampliar seu apelo midiático.

Nos bastidores, a avaliação é de que a disputa pelo título ultrapassa a avenida e envolve também a consolidação de espaço dentro da hierarquia informal do jogo do bicho. Para Adilsinho, vencer o Carnaval significaria não apenas um troféu, mas também capital simbólico em meio ao racha entre gerações da contravenção.

Fonte: Info Verus